Planejamento Financeiro para micro e pequenos negócios: uma questão de sobrevivência : FRST Falconi

Publicado em 28 de outubro de 2021

Planejamento Financeiro para micro e pequenos negócios: uma questão de sobrevivência

Equipe FRST

De acordo com o estudo do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), no primeiro semestre de 2021, mais de 2 milhões de micro e pequenos negócios foram abertos no Brasil, 35% a mais em comparação ao mesmo período de 2020 e quase o dobro em relação ao ano de 2015. Com base nos dados da Receita Federal, no primeiro semestre de 2021 em relação ao mesmo período do ano anterior, o registro de microempreendedores aumentou cerca de 33%, a abertura de micro e pequenas empresas cresceu 46%.

O desemprego no Brasil está em níveis preocupantes, em um índice que já era considerado alto nos últimos anos. Em 2020, com a pandemia de Covid-19, um grande número de pessoas perdeu seus postos de trabalhos formais, elevando a taxa média de desemprego para 13,5%, a maior taxa desde a série iniciada em 2012 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2021, a taxa se mantém elevada; de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), houve uma pequena redução na taxa de 14,7% no primeiro trimestre para 14,1% no segundo trimestre. O motivo dessa redução, segundo especialistas, pode ser os avanços da vacinação no país que vêm possibilitando o retorno gradual das atividades presenciais.

Diante desse contexto, muitos brasileiros desempregados buscaram empreender na pandemia, por necessidade de se obter renda ou aproveitando o momento do desemprego para colocar em prática um projeto antigo, isto é, abrir seu próprio negócio. No entanto, muitos desses empreendedores não estão preparados para encarar este desafio.

Historicamente no país, micro e pequenas empresas são fundamentais na retomada da economia após períodos de graves crises, contribuindo para a rápida criação de novos postos de trabalho e para a aceleração do crescimento econômico. De acordo com dados do Sebrae, no acumulado do primeiro semestre de 2021, com base nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), mais de 1,8 milhão de novos postos de trabalhos formais foram criados, e as micro e pequenas empresas foram responsáveis por 70% dessas vagas. Nesse ambiente, a sobrevivência dessas empresas é imprescindível e depende, em grande parte, de um planejamento financeiro consistente.

Fato é que empreender em um país de constantes incertezas, com pouco incentivo a micro e pequenos negócios, mostra-se desafiador; ademais, empreender em meio à crise econômica e sanitária apresenta-se um desafio ainda maior. Acrescenta-se o fato de que o improviso na condução do negócio, a falta de conhecimento em gestão e o descontrole financeiro são ameaças constantes à sobrevivência dessas empresas. Conforme a pesquisa Sobrevivência de Empresas realizada pelo Sebrae em 2020, no país a taxa de mortalidade de micro e pequenas empresa, antes de completarem cinco anos de atividade, é em torno de 29% para Microempreendedores Individuais (MEI), 22% para Microempresas (ME) e 17% para Empresas de Pequeno Porte (EPP).

Nesse cenário, compreender a importância do planejamento financeiro poderá auxiliar empreendedores e gestores na condução do novo negócio, reduzir ou eliminar os problemas financeiros mais recorrentes, visando evitar a extinção prematura dessas empresas.

Planejamento Financeiro o que é e para que serve?

Para uma melhor compreensão do assunto, fazem-se necessárias uma breve definição de planejamento e uma distinção entre o planejamento orçamentário e o planejamento financeiro.

Planejamento é um processo que se inicia com a definição de objetivos do negócio e o estabelecimento de planos para atingi-los. A definição dos objetivos é uma forma de determinar o que é importante para o negócio, a partir da análise das condições internas e externas, direcionando os esforços e os recursos para que seja possível alcançar esses objetivos.

“O planejamento consiste em estabelecer com antecedência as ações a serem executadas dentro de cenários e condições preestabelecidos, estimando os recursos a serem utilizados e atribuindo as responsabilidades, para atingir os objetivos fixados (HOJI, 2017).”

Planejamento Orçamentário é um instrumento do planejamento, baseado em estimativas, cuja função principal é planejar e controlar as entradas e as saídas de recursos da empresa, planejando as receitas, despesas, custos, investimentos e financiamentos, servindo como um direcionador para a empresa, com previsões mensais e/ou anuais.

“O planejamento orçamentário visa ao conhecimento antecipado de resultados e serve de guia para ações a serem executadas pelas unidades da empresa, definindo as responsabilidades pela gestão dos recursos e geração dos resultados de determinado período futuro (HOJI, 2017).”

Planejamento Financeiro consiste em pensar na saúde financeira do negócio, sua viabilidade e sua perenidade. A execução e continuidade de uma empresa dependem diretamente da disponibilidade financeira ou da capacidade de gerar os recursos.

“O planejamento financeiro é um aspecto importante das operações das empresas porque fornece um mapa para a orientação, a coordenação e o controle dos passos que a empresa dará para atingir seus objetivos (GITMAN, 2010).”

A importância de planejamento financeiro

O financeiro da empresa impacta todas as suas áreas, dele depende a sobrevivência do negócio, portanto, sua importância é elevada e merece grande atenção dos empreendedores e gestores.

O planejamento financeiro demanda um esforço mais complexo para a sua elaboração, com o levantamento das informações financeiras que são imprescindíveis para auxiliar os empreendedores e gestores em suas decisões racionais na condução do negócio.

Segundo Gitman (2010), o processo de planejamento financeiro se inicia pelos planos financeiros de longo prazo, ou estratégicos. Estes, por sua vez, orientam a formulação de planos e orçamentos de curto prazo, ou operacionais. Nesse sentido, os planos e orçamentos financeiros de curto prazo são responsáveis por implementar os objetivos estratégicos de longo prazo.

Um bom planejamento financeiro começa com boas informações, confiáveis e atualizadas, portanto, manter os controles financeiros alimentados diariamente é imprescindível. Dessa forma, será possível acompanhar, em tempo real, como está o financeiro da empresa e identificar problemas ou desvios no planejamento. Ademais, manter a contabilidade atualizada é fundamental, para que seja possível utilizar-se das informações contidas nos demonstrativos.

As informações financeiras podem ser extraídas de demonstrativos contábil-financeiros, tais como Balanço Patrimonial (BP), Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), Demonstração do Fluxo de Caixa (DFC), entre outros, capazes de resumir um grande número de informações de modo estruturado e simplificado.

Uma empresa que realiza um planejamento financeiro claro e coeso pode atrair mais interessados para o negócio, sócios ou investidores, possibilitar o acesso a melhores linhas de crédito e propiciar o crescimento condizente com as expectativas para o negócio.

O planejamento financeiro não elimina os riscos aos quais o negócio está sujeito, mas pode ajudar a prevê-los, reduzir as possibilidades de erros, permitir lidar melhor com as incertezas, projetar cenários possíveis, evitar os improvisos e a falta de recursos para a operação ou para a expansão.

Errar faz parte do negócio, mas insistir no erro é prejuízo!

Os erros fazem parte de todo aprendizado, e, na empresa não é diferente, pois é através deles que se busca melhorar aquilo que não saiu como o planejado. Aprender com os erros é uma forma de evitá-los ao máximo. Para isso, seguem aqui alguns dos erros frequentes que ocorrem no financeiro de micro e pequenas empresas, que podem impactar os resultados e comprometer a continuidade do negócio, portanto, fique atento a eles.

  • Não planejar financeiramente o negócio;
  • Haver falta de conhecimento ou de capacitação em gestão;
  • Não existir controles financeiros ou haver controles falhos;
  • Não separar as despesas da empresa das despesas pessoais;
  • Planejar de forma não condizente com a realidade financeira do negócio;
  • Propor metas financeiras inalcançáveis no curto prazo ou no longo prazo;
  • Esquecer ou abandonar constantemente o que foi planejado;
  • Não revisar o que foi planejado com uma frequência estabelecida;
  • Mudar o planejamento sem se basear em informações financeiras e demonstrativos;
  • Não manter um histórico de planejamentos anteriores;
  • Haver falta de comunicação entre os planejadores e os executores;
  • Ignorar ou subestimar os erros cometidos ao invés de enxergá-los como um aprendizado.

Estes são apenas alguns dos erros mais frequentes, mas, obviamente, a lista é extensa e não se finda por aqui.

O que não pode faltar em um bom planejamento financeiro?

O equilíbrio financeiro da empresa é constantemente ameaçado, e um bom planejamento é imprescindível para mitigar os problemas e reduzir os riscos inerentes do negócio.

O objetivo principal de uma boa gestão financeira é manter a saúde financeira da empresa, utilizando, da melhor forma possível, os recursos financeiros disponíveis, agregando valor financeiro para o negócio e para os seus empreendedores.

Seguem aqui alguns aspectos importantes a serem considerados no processo de elaboração de um bom planejamento financeiro.

  • Elaborar um orçamento financeiro anual para a empresa, detalhado e baseado em informações confiáveis e atualizadas;
  • Listar todas as despesas e obrigações atuais e futuras;
  • Listar todas as receitas recebidas e a receber;
  • Realizar um controle financeiro rigoroso;
  • Estabelecer metas financeiras de curto e longo prazo, de acordo com a realidade financeira do negócio;
  • Avaliar a necessidade de se buscar recursos, capitais próprios e de terceiros;
  • Projetar cenários financeiros otimistas e pessimistas, pensando como seriam as decisões nessas situações;
  • Utilizar-se de ferramentas de controle financeiro, compatíveis com as necessidades da empresa (planilhas, sistemas gerenciais, aplicativos, entre outros).


Para finalizar, aqui vai uma dica importante!

 Diz o ditado popular que “o hábito faz o monge”. De fato, quanto mais se planeja, mais se cria o hábito, que pode se propagar para todas as áreas da empresa e, também, para a vida pessoal dos seus empreendedores, afinal a empresa reflete as atitudes dos seus proprietários. O hábito de se planejar financeiramente, em um ambiente de constantes incertezas, ajudará a minimizar ou a eliminar os problemas mais recorrentes que ameaçam a continuidade do seu negócio.


Sobre a autora:
Alcione Souza, é mestre em Administração (UFMG), especialista em Gestão Cultural (Centro Universitário Una) e Contadora (PUC Minas). Mais de dez anos de experiência nas áreas contábil, financeira e terceiro setor. Professora em cursos MBA na PUC Minas e mentora na FRST Falconi.

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